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3 lições do documentário "Last Dance"


1. “Seja água” – Bruce Lee

O treinador Phil Jackson não agia com o Jordan do mesmo modo que agia com o Dennis Rodman. O Rodman, em inúmeros momentos, desapareceu, fez besteira, voltou do nada. Phil disse que, na cultura indígena norte-americana, ele seria chamado de um elemento “contra a corrente” – eles têm um nome específico para estes indivíduos.

Ao invés de criar um atrito, um cabo de guerra, Phil Jackson soube observar o comportamento do Rodman e usá-lo a seu favor. Ele se moldou à personalidade de cada um do elenco. Ele não tentou colocar uma rédea no Rodman para “mostrar quem manda”, não se sentiu ameaçado.

Phil sabia que as constantes saídas davam ao Rodman mais disposição para jogar com intensidade máxima e fazer o que sabia melhor: ganhar rebotes de pivôs que tinham 15cm a mais de altura (e vários kg a mais) que ele. Ele precisava de algo mais dionisíaco na sua rotina.

A falta de talento técnico do Dennis o obrigava a colocar muito mais energia física no jogo do que os demais, era um melhor reboteiro até mesmo que o Shaquille O’Neal, que tinha 2,16m e 165kg.

Ele foi recrutado pelo Jordan. Michael pediu o Dennis para Phil e disse “precisamos dos rebotes dele. Você consegue controlá-lo?” e Phil respondeu que sim. Assim Jordan autorizou e pediu a contratação. O resto é história.

Esse tipo de flexibilidade, principalmente ao gerenciar temperamentos muito diferentes, é essencial. Todo bom treinador deve dominar a comunicação, verbal e não-verbal. Phil observou, analisou, testou e viu que funcionava assim. Ele desenvolveu boa comunicação com seus atletas e sabia escutá-los, mesmo naquilo que eles mesmos não sabiam expressar tão bem.

Como disse Bruce Lee, se você coloca água num copo, ela vira o copo. Se coloca numa xícara, ela vira a xícara. Seja água.


2. Recompensa duradoura


Jordan, em um determinado momento em 1988, estava dominando todas as estatísticas e fez inúmeros triple-doubles (sete seguidos, recorde quebrado por Westbrook anos depois) quando foi para a posição de armador. Se ele seguisse no plano tático do Bulls de 88, na posição de armador, ele teria médias e estatísticas absurdas para época.

Mas, em determinado momento, ele percebeu, após uma boa comunicação com o Phil Jackson, que precisaria diminuir seu volume de jogo e aceitar maior ajuda dos companheiros para ganhar. Como era obcecado por ser campeão da NBA, Michael aceitou o plano – o ego não era prioridade. Ganhar era.

Ser autocentrado e buscar recompensas apenas de curto prazo tem seu preço. Não se deve abrir mão de recompensas imediatas, mas colocá-las numa balança com recompensas futuras e achar o equilíbrio. Como disse Aristóteles: "a virtude está no meio". Abrir mão de algo que você deseja hoje para agradar o que o seu “eu do futuro” vai desejar lá na frente é sinal de foco.

Há vários sistemas positivos de recompensa. O de dopamina é um dos principais (serotonina e opioides também influenciam). Algumas recompensas rápidas provocam rápidos aumentos tanto na serotonina quanto na dopamina, mas a questão é se esse aumento é sustentável. Normalmente não é. É algo consumível que assim que você alcança, você fica saciado.

Já as grandes vitórias podem gerar uma recompensa duradoura. É muito mais dopamina. A sensação e confiança de que estamos nos movimentando em direção a um objetivo importante na nossa hierarquia de valores nos motiva nos trabalhos menores que vão nos permitir chegar no objetivo final. Jordan focou naquilo que achava essencial ter ao encerrar sua carreira: títulos, e não estatísticas. Ser um vencedor.

Atingir estatísticas excepcionais é algo que pode ser superado com mudanças nas regras. E isso acontece frequentemente em vários esportes. Já um título e uma medalha no peito... Isso ninguém te tira. É seu e está marcado. Foque no que te dará mais retorno e na melhor recompensa.


3. Mire no fim, o meio se ajusta.


Keith Robert Loose fez um estudo sobre comandos verbais no lançamento de dardos. Um grupo focava no gesto do braço, outro na trajetória do dardo. O grupo que focava na trajetória obteve resultados melhores, mas com um dado curioso: embora seu ponto de arremesso fosse similar entre as tentativas, a variabilidade no posicionamento do ombro era bem grande.

Não havia uma técnica sendo eficientemente reproduzida pelos ombros, mas o resultado era melhor. O achado ficou conhecido como variabilidade funcional. Basicamente o aparelho locomotor reduz a variabilidade do resultado ampliando a gama de opções de gestos para atingi-lo.

Em resumo, os atletas dão seu jeito sob pressão. E foi o que o Jordan fez nos dois tricampeonatos. Em 1991, marcando o Magic Johnson e fazendo acrobacias no ataque; em 1992 com seu arremesso de 3, que era seu ponto fraco e virou um ponto forte; em 1993 com talvez a maior atuação que já houve numa final da NBA... Em 1997 jogando com 38 de febre, em 1998 chamando a responsabilidade e tendo o melhor desfecho possível pra sua carreira no Bulls.

Não importava como e quem iria marca-lo. Ele tinha outro modo de chegar na cesta. Em 1996, quando não teve um bom aproveitamento, soube cavar falta e usar o lance livre a seu favor.

Quando um atleta muito competitivo foca em algo, ele vai adaptando as táticas e estratégias para atingir esse objetivo. E abre mão do que for necessário. Ele se atualiza de acordo com o cenário.



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